O Bitcoin está vencendo. Mas talvez não do jeito que Satoshi imaginou
De uma experiência radical de descentralização a um ativo disputado por Wall Street: o que acontece quando uma tecnologia criada para desafiar o sistema passa a ser incorporada por ele?
Existe uma ironia na história do Bitcoin que merece ser discutida.
Uma tecnologia criada para permitir transferências de valor sem depender de instituições financeiras tradicionais tornou-se um ativo cobiçado justamente por algumas das maiores instituições financeiras do planeta.
Uma rede concebida para funcionar sem um controlador central passou a atrair empresas, fundos de investimento e governos interessados em acumular grandes quantidades de suas unidades.
Uma experiência que nasceu no universo cypherpunk, entre pessoas preocupadas com privacidade, criptografia e liberdade individual, tornou-se protagonista de um mercado que movimenta interesses bilionários.
O Bitcoin chegou aonde muitos imaginavam ser impossível chegar.
Mas há uma pergunta que não podemos evitar: quando o Bitcoin vence, quem exatamente está vencendo?
Os indivíduos que conquistaram uma alternativa ao sistema financeiro tradicional? As comunidades que acreditaram na possibilidade de construir uma economia mais descentralizada? Ou as mesmas estruturas de poder que aprenderam a transformar praticamente qualquer inovação em um novo produto financeiro?
Talvez a resposta seja: todos eles, em alguma medida. E é justamente aí que começa a contradição.
Antes de ser um investimento, o Bitcoin era uma pergunta
Conheci o Bitcoin em 2012. Naquele momento, a conversa era muito diferente da que ouvimos hoje.
Não havia a mesma presença institucional, a mesma cobertura da imprensa financeira ou a mesma quantidade de pessoas interessadas exclusivamente em acompanhar a cotação. O que saía na imprensa geralmente vinculava o Bitcoin à atividades ilícitas, terrorismo, tráfico, só coisas ruins!
Grandes bancos chegavam ao ponto de encerrar as contas, caso suspeitassem que o cliente tinha algum envolvimento com Bitcoin.
O Bitcoin circulava principalmente entre comunidades de entusiastas de tecnologia, criptografia, software livre e pessoas interessadas em experimentar outras formas de organização econômica.
A pergunta que me chamou a atenção não era simplesmente quanto aquela moeda poderia valer no futuro.
Era outra.
É possível criar dinheiro digital que não dependa da autorização de um banco, de uma empresa ou de um governo para funcionar?
Essa pergunta tinha implicações que iam muito além do mercado financeiro.
O dinheiro é uma das infraestruturas fundamentais da sociedade. Ele condiciona nossas possibilidades de produzir, consumir, poupar, trocar e organizar a vida econômica.
Historicamente, o funcionamento do sistema monetário dependeu de instituições que estabelecem regras, administram registros e controlam diferentes aspectos da circulação de valor.
O Bitcoin apresentou uma alternativa: um sistema de dinheiro digital baseado em uma rede distribuída, em regras públicas e em um mecanismo de consenso que permite aos participantes verificar as transações sem depender de uma autoridade central responsável por manter um registro único.
Não era apenas uma nova moeda.
Era uma experiência sobre como coordenar pessoas que não precisam confiar umas nas outras individualmente para participar de um mesmo sistema.
Em janeiro de 2009, Satoshi Nakamoto colocou a rede em funcionamento.
O documento publicado em 2008, Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System, apresentava uma proposta para permitir pagamentos eletrônicos entre pessoas sem a necessidade de uma instituição financeira intermediária.
Essa ideia era simples de explicar, mas extraordinariamente difícil de implementar. Como impedir que alguém gastasse as mesmas unidades monetárias duas vezes? Como manter um registro compartilhado das transações sem entregar seu controle a uma única organização? Como permitir que participantes independentes chegassem a um acordo sobre o estado de uma rede?
O Bitcoin apresentou respostas tecnológicas para essas questões. E demonstrou que era possível construir um sistema monetário digital com regras públicas, emissão previsível e resistência à alteração unilateral de seu histórico de transações.
Para quem acompanhava o debate sobre software livre e liberdade digital, havia algo especialmente significativo nisso. Não era necessário pedir licença para compreender o funcionamento do protocolo. Não era necessário convencer um banco a participar. Não era necessário obter autorização de uma empresa para desenvolver ferramentas compatíveis.
O código era público. As regras podiam ser examinadas. Qualquer pessoa com os conhecimentos e recursos necessários podia participar da rede.
Essa abertura não eliminava as desigualdades econômicas, mas criava uma possibilidade que merecia ser explorada. Foi isso que me interessou.
E foi por isso que, em 2012, passei a participar da comunidade Bitcoin Brasil, assumindo sua administração em 2013.
Em 8 de março de 2014, organizei a primeira BITCONF, em Florianópolis.
Naquele período, falar sobre Bitcoin significava, muitas vezes, explicar desde o princípio por que alguém poderia querer utilizar uma moeda digital que não era emitida por um banco central.
Precisávamos explicar carteiras, chaves privadas, mineração, transações e segurança. Precisávamos demonstrar que aquilo não era apenas uma curiosidade tecnológica.
Em palestras e encontros, distribuir pequenas quantidades de bitcoin para que as pessoas instalassem suas primeiras carteiras era uma maneira concreta de mostrar que o sistema podia ser experimentado, e não apenas discutido. Lembro que em muitas palestras enviei para participantes 0,05 bitcoins (hoje, cerca de R$ 20,000,00). A ideia era aproximar as pessoas da tecnologia.
Hoje, quando observo o tamanho que o mercado alcançou, percebo quanto mudou. Mas também me pergunto quanto da discussão original conseguimos preservar.
A revolução que virou classe de ativos
Durante muito tempo, o Bitcoin foi tratado como uma excentricidade. Depois, passou a ser apresentado como uma ameaça. Em seguida, como uma bolha. Mais tarde, como uma oportunidade de investimento.
Agora, para uma parcela crescente do mercado financeiro, ele é uma classe de ativos que pode integrar estratégias de investimento, produtos financeiros e políticas de tesouraria corporativa. Essa transformação não aconteceu por acaso.
O Bitcoin demonstrou resiliência ao longo de diferentes ciclos de valorização e desvalorização, sobreviveu a crises, enfrentou restrições regulatórias e continuou funcionando mesmo quando empresas importantes do ecossistema desapareceram.
Sua oferta limitada e sua política monetária previsível tornaram-se elementos centrais de sua narrativa econômica. A infraestrutura amadureceu. O mercado se desenvolveu. A negociação tornou-se mais acessível. Surgiram serviços de custódia, derivativos e instrumentos que permitem exposição ao preço do ativo sem que o investidor precise administrar diretamente uma carteira.
Em janeiro de 2024, a Securities and Exchange Commission dos Estados Unidos autorizou a listagem e negociação de diversos produtos negociados em bolsa vinculados ao preço à vista do Bitcoin. A decisão representou um marco na aproximação entre o ativo e o mercado financeiro tradicional.
Investidores que antes precisariam compreender o funcionamento de uma carteira, escolher uma plataforma e aprender a administrar chaves privadas passaram a poder obter exposição ao preço do Bitcoin por meio de produtos oferecidos no mercado de capitais.
Para muita gente, isso é uma excelente notícia. Aumenta a acessibilidade, amplia as possibilidades de investimento e pode contribuir para a consolidação do Bitcoin como parte do sistema financeiro.
Mas existe uma diferença fundamental entre comprar Bitcoin e participar da experiência que o Bitcoin tornou possível.
Ter exposição ao preço do Bitcoin não é a mesma coisa que ter autonomia sobre seus próprios bitcoins.
Essa distinção precisa voltar ao centro do debate.
Ter Bitcoin não significa necessariamente controlar Bitcoin
Imagine duas pessoas.
A primeira compra bitcoins, transfere os ativos para uma carteira cuja chave privada controla e aprende a realizar transações diretamente na rede.
A segunda compra cotas de um fundo que acompanha o preço do Bitcoin.
Ambas podem se beneficiar de uma valorização. Ambas podem acreditar no potencial econômico do ativo. Mas suas posições são diferentes.
A primeira tem bitcoins sob seu próprio controle e pode realizar transações conforme as regras do protocolo, respeitando as condições técnicas da rede.
A segunda tem um instrumento financeiro que lhe proporciona exposição econômica ao preço do ativo, mas não pode utilizar aquelas cotas para realizar uma transação na rede Bitcoin.
Não estou dizendo que uma modalidade seja necessariamente melhor para todas as pessoas. Fundos podem ser úteis para investidores que não querem administrar chaves privadas, por exemplo. A custódia própria exige conhecimento, cuidados e responsabilidade. Perder o acesso às chaves pode significar perder definitivamente o acesso aos fundos.
O problema começa quando deixamos de perceber que são experiências diferentes.
Uma coisa é investir em Bitcoin. Outra é utilizar Bitcoin. Outra, ainda, é compreender e participar de uma infraestrutura monetária que não depende de uma instituição central para validar suas transações.
A institucionalização amplia o acesso ao ativo, mas pode fazer com que uma parcela crescente das pessoas se relacione com o Bitcoin exclusivamente por meio de intermediários.
Nesse cenário, podemos chegar a uma situação curiosa: milhões de pessoas investindo em Bitcoin sem nunca realizar uma transação diretamente na rede, sem administrar uma chave privada e sem experimentar a autonomia que constitui uma de suas características fundamentais.
O Bitcoin continua funcionando como uma rede descentralizada. Mas a maneira como as pessoas se relacionam com ele pode voltar a depender de estruturas centralizadas.
Descentralizamos a infraestrutura e, em seguida, começamos a reconstruir os intermediários ao redor dela.
Não há contradição técnica nisso. A rede pode funcionar exatamente como foi concebida enquanto empresas centralizadas oferecem serviços sobre ela.
A questão é política e econômica: que tipo de sistema estamos construindo em torno dessa infraestrutura?
O capitalismo não precisa destruir uma inovação para incorporá-la
Existe uma interpretação segundo a qual a entrada de grandes instituições no mercado de Bitcoin representa necessariamente uma traição aos seus princípios. Acho essa leitura insuficiente.
O capitalismo tem uma capacidade extraordinária de incorporar inovações que inicialmente surgem em ambientes contrários às suas estruturas dominantes. Isso não acontece apenas com tecnologias.
Ideias, movimentos culturais, linguagens artísticas e formas alternativas de organização também podem ser transformados em produtos, serviços e oportunidades de negócio.
Uma inovação não precisa ser destruída para ser incorporada. Às vezes, basta que seja reorganizada para atender a outras finalidades.
O Bitcoin é um exemplo particularmente interessante porque sua estrutura não depende da concordância de todos os participantes sobre o significado político ou econômico do sistema.
Uma pessoa pode utilizá-lo porque acredita em liberdade financeira. Outra pode enxergá-lo como proteção patrimonial. Uma empresa pode mantê-lo em sua tesouraria. Um fundo pode oferecer exposição ao preço. Um governo pode estudar sua utilização como reserva estratégica.
Essas motivações são diferentes, mas podem coexistir na mesma rede. Isso é uma das forças do Bitcoin. Seu funcionamento não depende de que todos compartilhem a mesma ideologia.
Entretanto, a diversidade de interesses também produz disputas sobre o que o Bitcoin deve representar e sobre como seus benefícios serão distribuídos.
Quando uma empresa acumula grandes quantidades de bitcoins, isso não significa que ela passou a controlar automaticamente o protocolo.
Quando um fundo compra cotas de um produto financeiro vinculado ao ativo, isso não significa que passou a determinar as regras de consenso da rede.
É importante não confundir concentração de riqueza com controle técnico.
Mas também seria um erro ignorar a influência econômica que grandes detentores, custodiantes e intermediários podem exercer sobre o ecossistema.
O protocolo pode continuar descentralizado enquanto a porta de entrada para a maioria dos usuários se concentra em poucas empresas.
A rede pode continuar funcionando enquanto a custódia de grandes quantidades de ativos se concentra em instituições.
A oferta monetária pode permanecer limitada enquanto o acesso ao mercado se organiza em torno de produtos financeiros cada vez mais sofisticados.
A descentralização do protocolo não garante a descentralização do poder econômico. E essa talvez seja uma das lições mais importantes da trajetória do Bitcoin.
A concentração não acontece apenas nos fundos de investimento
Quando falamos sobre a institucionalização do Bitcoin, é comum concentrar a discussão nos ETFs, nas grandes gestoras e nas empresas que acumulam o ativo. Mas existe outra dimensão que merece atenção. A mineração.
A rede Bitcoin depende de participantes que investem em equipamentos e energia para produzir blocos e contribuir para a segurança do sistema. Esse processo é competitivo e exige recursos.
Com o desenvolvimento da indústria, a mineração tornou-se uma atividade profissional, com operações de grande escala, equipamentos especializados e acesso a fontes de energia e capital.
A existência de grandes operações não significa, por si só, que a rede esteja centralizada.
É necessário distinguir a concentração da capacidade de mineração do controle efetivo sobre o protocolo. Os mecanismos de consenso, a possibilidade de verificar blocos e as regras de aceitação das transações continuam sendo elementos fundamentais da arquitetura. Ainda assim, a concentração econômica merece ser observada.
Quando a participação na mineração depende de investimentos cada vez maiores, o acesso à atividade pode se tornar mais difícil para participantes menores.
Quando determinados grupos concentram parcela significativa da capacidade de produção de blocos, surgem questões sobre incentivos econômicos, coordenação e resistência à censura.
O mesmo raciocínio vale para a custódia, os serviços de negociação e a infraestrutura que conecta usuários ao sistema.
A descentralização não é uma propriedade que se conquista uma vez e permanece garantida para sempre. É um conjunto de características que precisa ser preservado diante das mudanças econômicas, tecnológicas e institucionais. E isso exige atenção constante.
Satoshi criou uma rede, não uma garantia de emancipação
É tentador transformar Satoshi Nakamoto em uma figura mítica. O criador anônimo do Bitcoin tornou-se parte de uma narrativa que mistura criptografia, liberdade, resistência ao sistema financeiro e a promessa de uma nova organização econômica. Mas precisamos tomar cuidado para não atribuir a Satoshi todas as nossas próprias expectativas.
O documento original do Bitcoin apresenta uma solução técnica para um problema específico: permitir pagamentos eletrônicos entre participantes sem depender de uma instituição financeira intermediária.
A partir dessa proposta, surgiram interpretações econômicas, políticas e filosóficas muito mais amplas. Algumas fazem sentido. Outras extrapolam aquilo que a tecnologia pode garantir.
O Bitcoin não prometeu eliminar as desigualdades sociais. Não prometeu acabar com o capitalismo. Não prometeu impedir a concentração de riqueza.
E não poderia, sozinho, cumprir essas tarefas.
O que ele oferece é uma infraestrutura monetária com propriedades específicas: uma política de emissão previsível, regras públicas, validação distribuída e a possibilidade de realizar transações sem depender de uma autoridade central para manter o registro.
Essas características podem ser importantes para a autonomia financeira. Mas autonomia financeira não é sinônimo de emancipação social.
Uma pessoa pode controlar suas próprias chaves privadas e continuar submetida a relações de exploração econômica. Pode utilizar Bitcoin e continuar sem acesso a serviços básicos. Pode ter liberdade para realizar uma transação e não ter recursos suficientes para realizá-la. Pode possuir um ativo escasso e continuar dependendo de intermediários para quase todas as outras dimensões de sua vida econômica.
Uma tecnologia pode ampliar a liberdade de escolha sem eliminar as estruturas que limitam essa liberdade.
Reconhecer isso não diminui a importância do Bitcoin. Pelo contrário. Permite compreender melhor aquilo que ele pode fazer e, igualmente importante, aquilo que não pode fazer sozinho.
O problema é quando o sucesso financeiro se torna a única medida de sucesso
Hoje, grande parte da conversa pública sobre Bitcoin gira em torno de seu preço. Quanto vale? Quanto poderá valer? Qual será a próxima máxima histórica? Quantos bitcoins uma empresa comprou? Qual fundo está acumulando mais? Qual país poderá adotar uma política favorável?
Essas perguntas são legítimas dentro de uma discussão sobre mercados. O problema é quando elas passam a ocupar todo o espaço. Quando isso acontece, a discussão sobre autonomia financeira desaparece. A preocupação com a custódia própria perde relevância.
A resistência à censura vira uma característica técnica mencionada apenas em apresentações comerciais. A possibilidade de construir serviços financeiros sem depender de intermediários deixa de ser uma questão central.
E o Bitcoin passa a ser tratado como qualquer outro ativo especulativo. Um ativo com características particulares, certamente, mas avaliado quase exclusivamente pela possibilidade de valorização.
É nesse ponto que precisamos perguntar se estamos diante de uma transformação efetiva da infraestrutura financeira ou apenas da criação de uma nova oportunidade de investimento dentro da infraestrutura existente.
As duas coisas podem acontecer simultaneamente.
O Bitcoin pode consolidar-se como um ativo importante do mercado financeiro e continuar oferecendo uma alternativa para quem deseja realizar transações sem depender de instituições centralizadas. Mas isso não acontece automaticamente.
Depende de como a tecnologia é utilizada, de quais ferramentas são desenvolvidas e de quanto conhecimento os usuários têm sobre as possibilidades e limitações do sistema.
Se a maioria das pessoas conhecer o Bitcoin apenas por meio de produtos financeiros, sua dimensão monetária e tecnológica poderá se tornar secundária no debate público.
O sucesso de mercado poderá esconder o empobrecimento de sua proposta original. E seria uma pena.
O que significa vencer?
Talvez seja necessário separar três formas diferentes de sucesso.
A primeira é o sucesso econômico.
O Bitcoin conquistou um lugar relevante na discussão sobre investimentos, patrimônio e mercados financeiros. A existência de produtos institucionais e o interesse de grandes organizações mostram que ele deixou de ser um fenômeno restrito a comunidades de tecnologia.
A segunda é o sucesso tecnológico.
A rede demonstrou que é possível manter um sistema monetário digital em funcionamento sem depender de uma autoridade central responsável por validar todas as transações. Essa experiência influenciou o desenvolvimento de outras tecnologias e ampliou o debate sobre sistemas distribuídos.
A terceira é o sucesso social.
Aqui, a pergunta é diferente. O Bitcoin está permitindo que mais pessoas tenham controle sobre seus próprios recursos? Está ampliando o acesso a formas alternativas de transferência de valor? Está reduzindo a dependência de intermediários onde essa dependência não é necessária? Está contribuindo para que as pessoas compreendam melhor as infraestruturas financeiras das quais dependem? Está criando possibilidades concretas de autonomia?
Essas perguntas não têm respostas universais.
Os resultados variam conforme o contexto, as condições de acesso, os custos, a regulação e as necessidades de cada pessoa. Mas elas precisam fazer parte da avaliação.
Porque o sucesso econômico de uma tecnologia não garante que seus benefícios sociais sejam distribuídos de maneira ampla.
Uma tecnologia pode enriquecer investidores e, ainda assim, ter pouca utilidade prática para parcelas da população. Pode ser tecnicamente descentralizada e economicamente concentrada. Pode desafiar determinados intermediários enquanto cria outros. Pode ampliar a liberdade em algumas dimensões e reproduzir desigualdades em outras.
O preço de um bitcoin não é um indicador suficiente de quanto a sociedade ganhou com o Bitcoin. Essa talvez seja a distinção mais importante que precisamos recuperar.
Não precisamos escolher entre adoção institucional e descentralização
Apesar das contradições, não vejo a institucionalização do Bitcoin como um processo necessariamente negativo. Seria equivocado imaginar que a única maneira de preservar suas características é impedir que empresas, fundos ou governos participem do ecossistema. Uma rede aberta não pode depender de que todos os seus participantes compartilhem as mesmas motivações.
A adoção institucional pode ampliar a liquidez, facilitar o acesso ao mercado e aumentar a visibilidade da tecnologia. O reconhecimento regulatório também pode reduzir determinadas incertezas para empresas e usuários, embora as regras aplicáveis variem entre países e possam criar novas barreiras.
Nada disso precisa ser incompatível com a existência de uma rede descentralizada.
O problema é acreditar que a entrada de grandes instituições representa, por si só, a realização de tudo aquilo que o Bitcoin prometia tornar possível. Não representa.
A institucionalização pode fortalecer a presença econômica do ativo e, ao mesmo tempo, ampliar a dependência de intermediários. Pode facilitar o acesso ao investimento e deixar em segundo plano a experiência de utilizar a rede diretamente. Pode aumentar a legitimidade do Bitcoin nos mercados e reduzir o espaço para discussões sobre autonomia financeira.
Não precisamos rejeitar a primeira parte para reconhecer a segunda. Precisamos apenas compreender que são dimensões diferentes. A rede continuará oferecendo possibilidades que não dependem da autorização de uma instituição central.
A questão é quantas pessoas conhecerão essas possibilidades, quantas poderão utilizá-las e quais condições serão necessárias para que essa utilização seja segura e acessível.
Essa é uma disputa que não será resolvida apenas pelo preço de mercado.
A próxima batalha é pelo significado do Bitcoin
Quando comecei a acompanhar o Bitcoin, em 2012, era comum precisar explicar por que alguém desejaria utilizar uma moeda digital sem uma autoridade central responsável por sua emissão.
Hoje, em muitos ambientes, precisamos explicar por que essa característica continua sendo importante mesmo depois que o mercado financeiro passou a oferecer formas convencionais de exposição ao ativo. Essa mudança diz muito sobre a trajetória do Bitcoin.
Ele conquistou reconhecimento. Atraiu capital. Ampliou seu alcance. Mas sua história ainda está sendo escrita.
E talvez a disputa mais importante agora não seja determinar se o Bitcoin será aceito pelo sistema financeiro tradicional. Em boa medida, essa aproximação já está acontecendo.
A questão é saber se a expansão do mercado será acompanhada pela preservação e pela ampliação das possibilidades de autonomia que a rede oferece. Se continuaremos desenvolvendo carteiras acessíveis, ferramentas de autocustódia, soluções de pagamento e infraestrutura aberta. Se continuaremos ensinando as pessoas a compreender o funcionamento da tecnologia, em vez de apenas incentivá-las a comprar um ativo. Se continuaremos discutindo descentralização como uma propriedade que precisa ser examinada na prática, e não apenas como uma palavra atraente para apresentações comerciais. E se teremos coragem de reconhecer que o Bitcoin pode ser importante sem ser uma solução para todos os problemas.
Para mim, essa discussão tem uma relação direta com a história do software livre. Não bastava criar programas cujo código pudesse ser examinado. Era necessário garantir as liberdades de executar, estudar, modificar e compartilhar o software. A abertura técnica importava porque permitia que as pessoas exercessem essas liberdades.
Da mesma forma, a existência de uma rede monetária descentralizada importa porque oferece possibilidades de utilização que não dependem de uma instituição central. Mas essas possibilidades precisam ser compreendidas, preservadas e colocadas ao alcance das pessoas. Caso contrário, corremos o risco de celebrar a existência de uma infraestrutura aberta enquanto a maior parte dos usuários permanece dependente de serviços que reproduzem as relações de poder das quais essa infraestrutura poderia oferecer uma alternativa.
Não se trata de exigir que todos administrem suas próprias carteiras ou abandonem os serviços financeiros tradicionais. Trata-se de garantir que essas alternativas continuem existindo e que as pessoas possam escolher entre elas de maneira consciente.
A liberdade não está apenas na existência de uma alternativa. Está também na possibilidade real de utilizá-la.
O Bitcoin está vencendo. Mas o que faremos com essa vitória?
Talvez Satoshi Nakamoto nunca tenha imaginado todas as formas pelas quais o Bitcoin seria incorporado à economia mundial. Talvez tenha previsto algumas delas. Não temos como saber com certeza.
O que sabemos é que o sistema criado em 2008 e colocado em funcionamento em 2009 ultrapassou em muito o círculo inicial de entusiastas e se tornou objeto de interesse de instituições que, em seus primeiros anos, dificilmente seriam associadas à ideia de dinheiro eletrônico descentralizado.
Isso é extraordinário. Mas não precisamos transformar essa trajetória em uma narrativa de vitória definitiva. A história da tecnologia não é uma sucessão inevitável de conquistas. É uma disputa permanente entre interesses, possibilidades e formas de organização.
Uma tecnologia pode nascer em um ambiente de colaboração e depois ser apropriada por estruturas concentradas. Pode ser desenvolvida para ampliar a autonomia e acabar sendo utilizada para aprofundar dependências. Pode oferecer novas possibilidades sem que essas possibilidades sejam distribuídas de maneira igualitária.
O Bitcoin não está imune a essas contradições.
Talvez sua maior contribuição tenha sido demonstrar que podemos construir uma infraestrutura monetária sem depender de uma autoridade central. Mas essa conquista não determina, sozinha, como a sociedade utilizará essa infraestrutura. Isso continua sendo uma escolha humana, econômica e política.
Não precisamos escolher entre celebrar o crescimento do Bitcoin e criticar suas contradições. Podemos fazer as duas coisas.
Podemos reconhecer sua importância e continuar perguntando quem se beneficia de seu desenvolvimento. Podemos valorizar a adoção institucional sem confundir investimentos com autonomia financeira. Podemos acompanhar a cotação sem esquecer que existe uma rede funcionando por trás dela. E podemos defender o Bitcoin sem transformá-lo em uma religião.
Porque, no final, a pergunta mais importante talvez não seja quanto valerá um bitcoin daqui a dez anos.
A pergunta é outra:
daqui a dez anos, quantas pessoas terão conquistado mais autonomia financeira graças ao Bitcoin – e quantas apenas terão aprendido a especular com seu preço?
Essa resposta ainda depende, em parte, do que fizermos agora. O Bitcoin pode vencer como ativo financeiro e continuar sendo uma alternativa monetária relevante. Mas, para que essa segunda dimensão não seja esquecida, precisamos ir além do mercado.
Precisamos voltar a discutir tecnologia, liberdade, acesso, infraestrutura e poder. Foi isso que me aproximou do Bitcoin em 2012. E continua sendo isso que considero importante discutir hoje.
O Bitcoin não precisa permanecer à margem do sistema para continuar oferecendo uma alternativa a ele. Mas também não devemos confundir sua entrada no sistema com a realização de todas as suas promessas.
A revolução não termina quando uma tecnologia é aceita pelo mercado. É nesse momento que precisamos perguntar o que ela ainda pode transformar.
Outros outubros virão.
