A internet foi privatizada

A internet foi privatizada

23 de setembro de 2026 Bitcoin criptomoedas IA opinião 0

Há uma história sobre a internet que costumamos contar. É a história de uma revolução.

Computadores pessoais substituíram os mainframes. A internet conectou computadores. A Web colocou informação ao alcance de qualquer pessoa. As redes sociais permitiram que qualquer um publicasse. Smartphones colocaram tudo isso no bolso.

É uma história bonita. E, em boa medida, verdadeira.

Mas está incompleta.

Porque existe outra história acontecendo ao mesmo tempo. A história de como uma rede que nasceu distribuída foi, pouco a pouco, sendo cercada por empresas.

De como aquilo que parecia uma infraestrutura pública de comunicação foi transformado em um conjunto de jardins murados.

De como nós deixamos de visitar sites para entrar em plataformas.

De como deixamos de construir nossa própria presença na internet para alugar um espaço dentro de Facebook, Instagram, YouTube, X, TikTok ou qualquer outra plataforma que esteja na moda.

E, principalmente, de como entregamos às empresas privadas uma parcela enorme do poder de decidir quem pode falar, o que podemos ver, como nos encontramos e quais informações sobre nós serão coletadas.

A internet não desapareceu. Ela foi privatizada.

E talvez uma das grandes disputas políticas e tecnológicas das próximas décadas seja justamente esta: podemos reconquistá-la?

A promessa original

Eu entrei no mundo da tecnologia no século passado. Naquela época, a internet ainda não era aquilo que conhecemos hoje. Havia algo quase artesanal na experiência.

Você precisava conhecer endereços. Criava páginas. Montava servidores. Participava de listas de discussão. Entrava em IRC. Trocava arquivos. Instalava software. Era tudo mais difícil. Mas havia também uma sensação muito poderosa: a internet era nossa.

Não no sentido de que não existissem empresas, governos ou interesses econômicos. Mas porque a arquitetura da rede permitia que qualquer pessoa pudesse, pelo menos em princípio, criar um servidor, publicar uma página, desenvolver um programa ou estabelecer uma comunidade sem precisar pedir autorização a uma plataforma.

A Web nasceu baseada em protocolos. Não em aplicativos. Essa diferença é fundamental. Protocolos são regras comuns que permitem que sistemas diferentes conversem entre si. Você não precisava usar o mesmo computador que outra pessoa. Nem o mesmo fabricante. Nem o mesmo software. Bastava que ambos falassem a mesma língua.

Essa arquitetura produziu algo extraordinário: a inovação podia acontecer nas bordas da rede.

Qualquer pessoa podia criar alguma coisa nova e colocá-la para funcionar. E, durante algum tempo, foi exatamente isso que aconteceu.

Então construímos as plataformas

A Web cresceu. E ficou mais fácil de usar.

Isso foi maravilhoso. Não precisamos mais saber HTML para publicar uma página. Não precisamos administrar um servidor para colocar uma fotografia na internet. Não precisamos entender protocolos para conversar com alguém do outro lado do mundo.

As plataformas resolveram problemas reais. E foram extremamente eficientes em fazer isso.

O problema não foi termos criado plataformas. O problema foi termos passado a depender delas para praticamente tudo.

A transformação foi sutil. Primeiro, criamos um site. Depois, criamos uma conta. Depois, criamos um perfil. Depois, nossos amigos estavam todos naquela plataforma. Depois, nosso público estava lá. Depois, nosso trabalho estava lá. Depois, nossos contatos estavam lá. Depois, nossas fotografias estavam lá. Depois, nossa memória estava lá.

E, quando percebemos, nossa identidade digital inteira estava dentro de uma empresa privada.

A internet continuava ali. Mas nós já não navegávamos por ela. Nós navegávamos por plataformas.

O jardim murado

Existe uma expressão muito boa para isso: walled garden, o jardim murado.

Você pode entrar. Pode plantar algumas coisas. Pode convidar seus amigos. Pode até ganhar dinheiro. Mas o terreno não é seu. As regras não são suas. O algoritmo não é seu. Os dados não estão realmente sob seu controle. E, principalmente, você pode ser expulso.

Eu vivi isso recentemente de uma maneira bastante concreta. Uma conta do Instagram associada ao meu trabalho foi desativada pela Meta. De uma hora para outra, uma parte da infraestrutura digital que eu utilizava para me comunicar com uma comunidade desapareceu.

Não porque a internet tivesse deixado de funcionar. Não porque meus computadores tivessem quebrado. Não porque a informação tivesse sido destruída. Mas porque uma empresa privada decidiu que aquela conta não deveria estar disponível.

A conta acabou sendo restabelecida posteriormente, após ação judicial. Mas a experiência permanece. Ela revela algo que muitas vezes esquecemos:

Quando nossa presença digital depende de uma plataforma, estamos sujeitos às regras de propriedade daquela plataforma.

Isso vale para todos nós. E não apenas para quem trabalha com tecnologia.

O verdadeiro produto talvez seja a nossa atenção

A transformação seguinte foi ainda mais profunda. As plataformas descobriram que não precisavam apenas hospedar nosso conteúdo. Elas poderiam organizar aquilo que vemos.

E isso mudou tudo.

Antes, quando você visitava uma página na Web, normalmente havia uma relação relativamente direta: você > página.

Nas plataformas, surgiu outra camada: você > algoritmo > conteúdo.

O algoritmo passou a decidir quais conteúdos têm maior probabilidade de prender nossa atenção. Isso criou um modelo econômico extraordinariamente poderoso.

Quanto mais tempo permanecemos dentro da plataforma, mais dados são produzidos. Quanto mais dados são produzidos, melhor o sistema consegue prever nosso comportamento. Quanto melhor consegue prever nosso comportamento, mais eficiente pode ser na venda de publicidade. E quanto mais eficiente é a publicidade, mais dinheiro a plataforma consegue gerar.

Não é necessário imaginar uma conspiração. É suficiente compreender o modelo de negócios. Nossa atenção virou mercadoria. E nossos dados passaram a ser uma das matérias-primas mais importantes dessa economia.

O problema não é apenas econômico

Aqui está uma questão que me interessa particularmente. Costumamos discutir a concentração das Big Tech como um problema econômico.

Monopólio. Concorrência. Privacidade. Publicidade. Tributação.

São questões importantes. Mas existe algo ainda maior.

Infraestrutura é poder.

Quem controla estradas controla uma parte importante da circulação. Quem controla portos controla uma parte importante do comércio. Quem controla energia controla uma parte importante da economia. E quem controla as infraestruturas digitais através das quais bilhões de pessoas se comunicam controla uma parte importante da circulação de informação.

Por isso, a discussão sobre a internet nunca foi apenas tecnológica. É uma discussão sobre poder.

Foi nesse contexto que surgiu o Bitcoin

É impossível entender o Bitcoin apenas como uma moeda. O Bitcoin surgiu também como uma experiência radical de infraestrutura.

A pergunta fundamental era: é possível criar uma rede de valor sem que uma autoridade central precise autorizar cada transação?

Essa pergunta pode parecer muito específica. Mas ela pertence a uma família muito maior de perguntas:

  • É possível publicar sem depender de uma editora?
  • É possível criar software sem depender de uma empresa?
  • É possível conversar sem depender de uma rede social?
  • É possível trocar valor sem depender de um banco?
  • É possível construir comunidades sem depender de uma plataforma?

Essas perguntas têm algo em comum. Todas questionam a necessidade de um intermediário central.

O software livre já tinha começado essa revolução

Muito antes do Bitcoin, havia gente fazendo algo parecido com software.

O movimento do software livre mostrou que uma comunidade poderia produzir infraestrutura tecnológica fundamental de maneira colaborativa, aberta e distribuída.

Linux. GNU. Apache.

E milhares de outros projetos. A ideia era aparentemente simples:

o conhecimento tecnológico não deveria necessariamente ser propriedade exclusiva de uma empresa.

Isso não eliminou o capitalismo. Não eliminou as empresas. Não eliminou relações de poder. Mas mostrou uma coisa importantíssima:

existem formas de produzir tecnologia baseadas em colaboração, abertura e compartilhamento.

Bitcoin levou parte dessa lógica para outro território. E o Fediverso leva essa discussão para outro ainda.

Agora estamos tentando reconstruir as redes sociais

É aqui que o Fediverso se torna particularmente interessante.

Imagine que você possa usar uma rede social sem que uma única empresa seja dona da rede inteira. Você cria uma conta em um servidor. Outra pessoa cria uma conta em outro.

Os dois servidores podem conversar.

Você pode mudar de servidor. Pode existir uma comunidade com suas próprias regras. Outra comunidade pode ter regras diferentes.

E elas ainda podem conversar.

É uma arquitetura completamente diferente daquela das grandes plataformas. Não significa que seja perfeita. Não significa que todos os problemas estejam resolvidos. Não significa que descentralização seja automaticamente sinônimo de liberdade.

Mas significa que existe novamente uma possibilidade que havíamos esquecido: a rede pode ser maior do que a empresa que oferece a interface para acessá-la.

E agora chegou a inteligência artificial

Talvez este seja o próximo grande capítulo dessa história. A inteligência artificial pode seguir dois caminhos muito diferentes.

De um lado, podemos ter uma concentração inédita. Pouquíssimas empresas controlando:

  • os maiores modelos;
  • os chips;
  • os data centers;
  • os dados;
  • a infraestrutura de computação;
  • os canais de distribuição;
  • e, progressivamente, os agentes que intermediarão nossa relação com o mundo digital.

Seria uma concentração de poder talvez ainda maior do que aquela que testemunhamos na Web 2.0.

Mas existe outro caminho.

Modelos abertos. IA local. Software livre. Protocolos abertos. Computação distribuída. Agentes interoperáveis. Comunidades produzindo modelos e ferramentas.

Novamente, a pergunta aparece: a inteligência artificial será mais um mecanismo de concentração ou poderá participar de uma nova onda de descentralização?

Ainda não sabemos. E talvez seja justamente por isso que essa disputa seja tão importante.

Não existe tecnologia neutra

Existe uma tentação, principalmente entre os tecnólogos, de imaginar que basta criar uma tecnologia melhor.

Não basta.

Bitcoin não acabou com a concentração econômica. Blockchain não eliminou intermediários. Software livre não acabou com as grandes empresas de tecnologia. O Fediverso não tornou automaticamente as redes sociais democráticas. E a inteligência artificial certamente não vai resolver sozinha os problemas políticos da sociedade.

Tecnologia não substitui política. Não substitui organização. Não substitui cultura. Não substitui conflito social.

Mas tecnologia muda aquilo que é possível fazer.

E, por isso, quem controla a tecnologia participa da definição do futuro.

A internet ainda pode ser nossa

Talvez essa seja a parte mais importante.

Eu não acho que devamos voltar à internet dos anos 1990. Não quero uma internet mais difícil de usar. Não quero que cada pessoa precise administrar um servidor para publicar uma fotografia. Não quero romantizar um passado que também tinha seus problemas.

A questão é outra.

Podemos ter a facilidade das plataformas sem entregar a elas todo o poder? Podemos ter redes sociais sem que uma única empresa seja dona das nossas relações? Podemos ter inteligência artificial sem que meia dúzia de empresas controle toda a capacidade computacional e cognitiva? Podemos ter dinheiro digital sem que cada transação dependa de uma instituição central? Podemos construir comunidades que sobrevivam à falência ou à mudança de regras de uma empresa?

Podemos recuperar alguma soberania sobre nossa própria vida digital?

Eu acho que essas são algumas das perguntas mais importantes do nosso tempo.

E talvez seja por isso que Bitcoin, blockchain, software livre, Fediverso e inteligência artificial não sejam assuntos tão separados quanto parecem.

Eles são capítulos diferentes de uma mesma história.

A história da disputa pela infraestrutura da nossa vida digital.

Outros outubros virão

A internet não morreu. Ela continua sendo uma das maiores invenções da humanidade.

Mas aquilo que fizemos com ela pode mudar.

Podemos continuar caminhando para uma internet cada vez mais centralizada, controlada por plataformas que determinam as regras de participação. Ou podemos construir alternativas.

Não necessariamente substituir tudo. Não necessariamente destruir as plataformas existentes. Mas criar infraestruturas alternativas suficientes para que nenhuma empresa seja dona da nossa vida digital.

Talvez a verdadeira revolução não seja criar uma nova plataforma. Talvez seja voltar a construir protocolos. Voltar a construir ferramentas que possam ser apropriadas pelas pessoas. Voltar a construir comunidades que não dependam de uma única empresa. Voltar a construir uma internet onde a inovação possa novamente acontecer nas bordas.

Porque a questão nunca foi simplesmente quem possui os computadores.

A questão é:

quem controla as infraestruturas através das quais uma sociedade se comunica, organiza, produz e imagina seu futuro?

Essa disputa está apenas começando.

Outros outubros virão, outras manhãs, plenas de sol e de luz.

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